Sobre o Facebook [texto retirado do blog rizoma.milharal.org]

Texto retirado de: https://rizoma.milharal.org/2013/03/10/sobre-o-facebook/

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SOBRE O FACEBOOK

Texto adaptado por “alho-poró” tendo como base o texto: http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2013/01/516082.shtml

Precisamos falar sobre o facebook

Por muitos anos temos provido servidores e infraestrutura de comunicação para a esquerda. Temos feito o nosso melhor para manter servidores seguros e temos resistido por vários meios a requisições a dados de usuário/a feitas por autoridades.

Em resumo: tentamos oferecer uma forma de comunicação libertadora dentro da internet capitalista.

Sempre vimos a internet como um recurso para nossas lutas, e ao mesmo tempo a reconhecemos como um terreno político controverso, e agimos em consonância com isto. Pensávamos que a maior parte da esquerda a enxerga da mesma maneira. Mas uma vez que mais e mais pessoas na esquerda tem “usado” o Facebook (ou o Facebook as tem usado), não temos mais certeza sobre isso. Ao contrário, nosso trabalho político tem sido insuficiente e exaustivo. A comunicação criptografada com servidores autônomos não é tida como libertadora, mas como irritante.

Disneylândia

Apenas não havíamos percebido que, depois de toda a tensão nas ruas e todas aquelas longas discussões grupais, muitos ativistas parecem ter o desejo de falar bastante no Facebook sobre tudo e todos. Não havíamos percebido que, mesmo na esquerda, o Facebook é a mais doce das tentações. Que a esquerda, como todo mundo, gosta de seguir a suave correnteza da exploração aonde ela não parece fazer mal nenhum e, mesmo só por uma vez, não precisar resistir. Muitas pessoas sofrem de má consciência. Embora isto possa levá-las a antever as consequências fatais do Facebook, isso não parece ter sido transformado em ação.

É realmente ignorância?

Só para dar um breve resumo do problema; ao usar o Facebook, ativistas não apenas fazem sua própria comunicação, sua opinião, seus “curtir”, etc. transparentes e disponíveis para processamento. Ao invés disso — e consideramos ainda mais importante — eles/as expõem estruturas e indivíduos que tem pouco ou nada a ver com o Facebook. A capacidade do Facebook de investigar a rede atrás de relações, semelhanças, etc. é difícil de ser entendida por pessoas leigas. O falatório no Facebook reproduz estruturas políticas para autoridades e empresas. Este falatório pode ser pesquisado, organizado e agregado não apenas para obter declarações precisas sobre relações sociais, pessoas-chave, etc, mas também para realizar previsões, das quais se pode deduzir regularidades. Depois dos celulares, o Facebook é a mais sutil, barata e melhor tecnologia de vigilância disponível.

Usuários do Facebook como informantes não-intencionais?

Sempre pensamos que a esquerda queria outra coisa: continuar nossas lutas na internet e usá-la para nossas lutas políticas. É disso que se trata para nós — mesmo hoje. É por isso que vemos usuários/as de Facebook como um perigo real para nossas lutas. Em particular, ativistas que publicam informações importantes no Facebook (muitas vezes não sabendo o que estão fazendo), que são cada vez mais utilizadas por órgãos de segurança pública. Poderíamos quase ir tão longe ao ponto de acusar esses/as ativistas de colaboracionismo, mas ainda não chegamos a este ponto. Ainda temos esperança que as pessoas percebam que o Facebook é um inimigo político e que aqueles/as que o usam fazem-no mais e mais poderoso. Usuários/as ativistas do Facebook alimentam a máquina, e assim revelam nossas estruturas — sem qualquer necessidade, sem qualquer mandado judicial, sem qualquer pressão.

Nosso Ponto de Vista

Estamos cientes que falamos “de cima”. Para nós, que trabalhamos por anos — e muitas vezes ganhamos a vida — com a rede e com computadores, administração de sistemas, programação, criptografia e muito mais, o Facebook surge quase como um inimigo natural. E desde que também nos consideramos como parte da esquerda, isto soma-se com a análise da economia política do Facebook, onde “usuários/as” são transformados em produto a ser vendido e tornam-se consumidores ao mesmo. O jargão para isso é “geração de demanda”. Percebemos que não é todo mundo que lida com a internet de forma tão entusiasmática como nós. Mas que ativistas permitam que este Cavalo de Tróia chamado Facebook seja parte das suas vidas cotidianas, é um sinal e ignorância num nível crítico.

[fim do texto original, e início da adaptação]

Ignorar que o Facebook tem seu relativo alcance é fingir que tod@s @s ativistas de sofá acessem também outros canais de comunicação. Eles muitas vezes não o fazem. Toda a informação que chega para esta parcela da população enfrenta o filtro do facebook. Se o Facebook saísse do ar por 2 ou 3 dias muitas pessoas não saberiam nem por onde começar a buscar infomações.

O Facebook pode ser encarado como uma das ferramentas de divulgação. Divulgação, e não produção de notícia. Ela é só mais uma ferramenta, que atinge só uma pequena parcela de interessadxs.

Muitos movimentos sociais e/ou ativistas têm tomado o facebook como única fonte de produção e difusão de informações. Não se publicam mais fotos fora do facebook, os vídeos são carregados diretamente dentro da rede social, eventos, atos, cine-debates, rodas de conversa, grupos de estudo – tudo – absolutamente tudo tem ficado restrito à quem tem uma conta no facebook. Com isto isola-se os ativistas que não entraram na engrenagem Zuckerberg, ignora-se outras classes sociais, outros recortes etários. A mensagem fica restrita àqueles que possuem de pelo menos 2 horas livres na rede social. E essa geralmente é a parcela que hoje é apelidada de “classe média chateada”.

Isolar xs ativistas de outras gerações é também um dos objetivos do Estado. Há algo mais controlável do que manifestantes que não trocam informações de experiências entre si? Há algo mais controlável do que deixar com que vivam na ilusão de que estão realmente fazendo algo muito grande pelo “fim da corrupção no país”?. Deixe que conquistem uma ou outra pauta com o Conar, deixem que sintam que são ouvidos enquanto consumidores e isto bastará. Pois assim os protestos giram em torno de fortalecer as marcas e não de destruir o sistema que as mantém.


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